O menino e o pássaro

O chão.
Quanta verdade consegues suportar?


Desde os tempos mais remotos da civilização humana, a busca pela perfeição estética é delineada pela sociedade, adequando-se aos seus costumes, tradições e cultura. No entanto, nos dias atuais, esta persecução assumiu parâmetros nunca antes vistos, e o alcance da perfeição esconde, paradoxalmente, uma face disforme de alienação.
Primeiramente, deve-se considerar que a noção do que é perfeito varia de acordo com as sociedades. Se outrora se valorizavam formas arredondadas, hoje a mídia institui um modelo de magreza quase sempre excessivo e, no intuito de se moldarem a ele, muitas pessoas – em grande parte, mulheres – desenvolvem distúrbios alimentares como anorexia e bulimia, por conseqüência de terem colocado, acima da saúde, o enquadramento ao padrão vigente.
Além disto, o avanço da medicina estética provocou uma proliferação de profissionais do “belo” e dos serviços oferecidos por estes – o que não é negativo, levando-se em conta questões como a auto-estima do indivíduo, mas torna-se inaceitável quando transpõe as barreiras da vaidade e do amor-próprio, enveredando pelos rumos obsessivos da automutilação. Os retoques, tão apreciados e difundidos na Antigüidade, tornam-se verdadeiras transfigurações, muitas vezes deformando as características verdadeiramente humanas.
Destarte, é de se repensar o ideal estético atualmente buscado por tantos, tanto pela sua inviabilidade, quanto pela sua real funcionalidade. A indústria da beleza movimenta muito dinheiro, mas não consegue cumprir com a promessa de satisfação de seus clientes. Afinal, eles estão sempre buscando a inalcançável perfeição, e alinhar-se ao padrão do belo é, decerto, possível – porém, evidentemente, desnecessário.

À tôa, lembrei-me de ouvir as pessoas pedindo aos seus deuses não cruz mais leve, mas ombros mais fortes.
Ah! Ombros mais fortes! Almas tão frágeis...
Eu quero a alma mais forte.
Faço-a tão forte que às vezes sinto dor em meu corpo carregá-la.
E então ele fica, por si só, também mais forte.
Às vezes sinto algo em minhas costas:
Não sei se o fardo, pesado, que devo carregar
Ou um par de asas insurgentes
Idílicas
Que me propulsionem a voar.



Presumindo que disseste um "sim", sinto desapontá-lo em discordar. Não, não, eu não perdi o senso. Só peço calma. Antes que me lancem às chamas da fogueira de vossa Inquisição, pensemos um pouco sobre o significado latente desta tal "competência".
Segundo ALEXANDRINO e PAULO (2007, p.311), podemos simplificadamente definir competência como o poder legal conferido ao agente público para o desempenho específico das atribuições de seu cargo. Ora, sendo assim, a competência é inerente àquele que exerce determinado trabalho, não sendo objeto de qualificação do mesmo.
Dessarte, temos que qualquer indivíduo é competente no tocante aos seus encargos, pois estes estão regulamentados de acordo com as diretrizes legais.
Por que dizemos, então, que tais governantes são incompetentes? Como pode-se ver, competência eles têm de sobra - basta passar os olhos na Constituição Federal -, o que lhes falta é algo mais: eficiência.
É nesta mesma Constituição, aliás, que ela é preconizada. Precisamente no artigo 37, ao qual foi incluída pela Emenda Constitucional de número 19/1998, através do que se denominou "reforma administrativa". Portanto, assim se lê em excerto da Carta Maior:
Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência (...).
Belíssimo, hemos de convir. Ainda mais eloqüente é o constitucionalista Alexandre de Moraes, que tece, sobre tal princípio, o comentário de que ele "impõe à Administração Pública direta e indireta e a seus agentes a persecução do bem comum, por meio do exercício de suas competências de forma imparcial, neutra, transparente, participativa, eficaz, sem burocracia, e sempre em busca da qualidade, primando pela adoção dos critérios legais e morais necessários para a melhor utilização possível dos recursos públicos, de maneira a evitar desperdícios e garantir-se maior rentabilidade social".
Parece ironia - mas no fim de tudo somos nós, somente nós, os verdadeiros incompetentes.


Salve, salve, grande Machado de Assis.



No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Carlos Drummond de Andrade. Poeta do Modernismo brasileiro.
Tinha uma pedra em seu caminho: a obscuridade.
Outra: a ignorância.
Ainda: a incompreensão.
Antigamente, Drummond fora um louco. Hoje, é expoente literário – um visionário. Tropeçou em certas pedras; várias delas circundou. Porém, ali estavam: lúgubres, no centro e à margem – obstruindo a passagem.
Muitos tentaram tirá-las; outros mais retornaram a colocá-las. Alguns, ainda, as dinamitam – mas estas, quase invencíveis, ressurgem e se solidificam.
Desinformação, mau-caráter regado a vinho. Talvez não tenhamos posto pedras – e sim, construído lápides. Um paço fúnebre e fatal - no meio, bem no meio do caminho.

Engraçado - ouso, lamentável - o modo como definimos rotina: "caminho já trilhado e sabido".
Hábito, dizem.
O mesmo que nos faz até acostumarmos-nos tanto com bobagens do nosso dia-a-dia, passando pela mudança dos tempos, e chegando até a fatos de proporções muito maiores.
Acostumamo-nos, desde cedo, à imposições da sociedade em que vivemos. À nossa cultura. A escovar os dentes, a vestirmo-nos, a não nos despirmos defronte a outrem. Nada mais natural, são as (saturadas) normas de convivência. Aceitável até certo ponto. Mas não cheguemos à transvaloração dos valores – isto já navega em mares mais profundos.
Acostumamo-nos a nossos horários, a estarmos adequados a eles - diga-se de passagem, sempre pontuais - e forçarmos nossos organismos a fazer o mesmo. Capitalismo.
Por fim, acostumamo-nos ao que vemos diariamente:
"Leopardos irrompem no templo e bebem até o fim o conteúdo dos vasos sacrificiais; isso se repete sempre; finalmente, torna-se previsível e é incorporado ao ritual".
Salve Kafka. Corrupção incorporou-se ao 'templo' Brasil.
9 de janeiro.
Nossas crianças e jovens são ensinadas a comemorar o conhecido “Dia do Fico”. Antecedente à independência, memorável feito do emérito Dom Pedro I.
“Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação. Estou pronto! Digam ao povo que fico”.
Um prenúncio de nossa liberdade – ela seria efetivada em 7 de setembro do mesmo ano.
Comemorem, brasileiros!
Hoje é o dia para lembrarmo-nos da conquista de nossa Independência. Estávamos, enfim, rumando por caminhos brasileiros; tomando medidas de caráter nacional. Em breve, não dependeríamos de nenhuma outra nação.
Utopia.
De 1822 para 2007 já se passaram 185 anos. Liberdade? Diga ao povo que fica. Ou, ao menos, que um dia vem.
Não temos nada a comemorar.
Ao menos eu,
não tenho.
*

Nós lutamos para nada. Por nada. E, sobretudo, com nada. Nossas únicas armas são as palavras – mas elas são inúteis diante da ignorância.
A desinformação e a burrice são nossas piores inimigas. Minhas, principalmente. Elas sempre nos privam daquilo que há de mais precioso: o conhecimento – aquilo que nos resta quando o corpo, as jóias e a beleza vão embora. Aquilo com o qual nos esforçamos na construção de um mundo mais justo.
Hoje, ouvi que Filosofia não era conhecimento. Revoltei-me. Se não é, o que seria, então? Agora eu sei. Realmente, conhecimento a Filosofia não é. É algo mais. É sabedoria.
Sabedoria que falta a muitos detentores do poder – seja ele qual for. Infelizmente, meus caros, eles precisam muito da arte do “inútil”.
O inconformismo é nocivo àqueles que vivem no berço do capitalismo – ou da nossa sociedade -. Questionar é perigoso.
Cuidado. Você pode perceber que, como eu, é inútil.
De certa forma, este breve escrito talvez seja a continuação do anterior. Dedico-os ao caro visitante Henrique, que fez com que eu abordasse, também, esta questão a respeito da perpectiva política. Como prometi, aqui está minha resposta a você:
Em nossa Nação, presenciamos escândalos diariamente. CPIs de “Mensalões e Mensalinhos”, dólares em roupas íntimas, máfias de sanguessugas e até gabirus. Muitos deles, inclusive, aconteciam há anos, ultrapassando gestões e governos diferentes. Denúncias de corrupções, calúnias contra governantes. A nossa política, para muitos, chegou a um estágio de degradação irreversível. Todos os dias, tenta-se apontar o culpado por tanto caos. Vã tentativa: talvez a culpa não paire apenas sobre um, mas sobre todos. Todos os brasileiros que se negaram a pesquisar sobre seus candidatos; que fecharam os olhos diante de uma realidade cruel, muitas vezes motivados apenas por um motivo ínfimo.
Culpa compartilhada, também, por todos: os que estão no poder e direcionam nosso país, pouco fazem para reverter esta situação hostil. Algumas vezes, vemos esforços individuais sobrepostos pela extensa e consolidada rede de corrupção instaurada em nossa Pátria, cuja desintegração só pode ser feita a partir de um único meio: o constante exercício da cidadania. Afinal, este direito não se exerce apenas de dois em dois anos: deve fazê-lo diariamente, na consciência política de cada cidadão do Brasil. Quem sabe assim alcancemos o sonho de construir um país democrático, livre e varonil.
Atualmente, vivemos em um regime que se diz democrático. Segundo Aurélio, uma “doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição eqüitativa de poder”. Em nosso país, a aplicação da democracia e de seu exercício maior, a cidadania, ainda é utopia. Um sonho distante, há muito projetado pelo povo brasileiro.
O processo de construção de nossa cidadania é diretamente proporcional à eficácia de nosso processo eleitoral. Afinal, o direito de gozarmos dos direitos civis e políticos de nosso Estado depende principalmente da escolha consciente de nossos governantes. Porém, um povo que vive em condições desumanas de miséria, subnutrição e desemprego não tem acesso à – verdadeira - informação e, sobretudo , à educação necessária para escolher eficazmente o seu representante no Poder.
A Filosofia Política é um ramo da Ética que investiga o sentido da vida social e das relações de poder, para que sejamos capazes de descortinar uma coerente visão de mundo. Ressurgida nos anos 70 com a luta pela democracia em países submetidos em regimes autoritários, hoje ela se mostra ainda mais necessária. Onde a cidadania está longe de ser uma realidade e, a Constituição, longe de ser cumprida em sua totalidade, urgem os brados da verdadeira liberdade.
Do Imperialismo ao voto de cabresto e clientelismo, vivenciamos de tudo. E, ainda hoje, certas práticas persistem. Porém, lembremo-nos:
“Um voto tem mais força que um tiro de espingarda.”
Abraham Lincoln
Mariana Melo

Seu jardim sempre fora azul, banhado por um enérgico colorido céu. Suas idéias eram belas, mas quem as aceitaria? Eram hilárias suas rosas azuis num mundo onde, para elas, havia uma só cor. Será que seríamos obrigados a enxergá-la, unicamente, para todo o sempre?
Reprimido e triste, cresceu o garoto das rosas azuis. Cultivando flores de papel, buscava refúgio para suas angústias. Queria mudar: para ele surgiram terras ainda maiores que a insignificante dimensão de seu jardim. Havia cidades, Estados, países coagindo aqueles como ele. Havia o poder, dilacerando sua plantação.
Diante de tal situação, o jovem que outrora se preocupava com as cores de seus desenhos, passou a se preocupar com as nuances do mundo. A ele, bradou seus anseios, lutou para torná-lo mais colorido – e que houvesse, enfim, liberdade de opinião -. Suas idéias eram um ultraje perante os poderosos jardineiros: um mundo de rosas azuis, não! Em toda a produção, não havia esta coloração.
Calaria-se, então, o garoto das rosas azuis. Tingiria-se seu jardim de vermelho. Era o fim. Não se ouvia mais a voz daquele que ousara mudar os tons do mundo. Mas via-se, sim, uma rosa azul desabrochar, timidamente, em muitos jardins.

E se você pudesse viver todas as alegrias;
todos os tormentos;
todas as dores;
todo o sofrimento.
Toda a felicidade, alegria momentânea;
toda a saudade;
toda a lembrança.
Todo o amor...Toda a rejeição...Toda a esperança.
Sem nada novo, sem nada melhor, sem nada pior.
E se você pudesse viver tudo outra vez?
